Por Sandro Roberto de Souza, Secretário de Educação da ACAAPESP.

O espelho europeu e a urgência de uma classe política instruída

O retrato brasileiro

Os números mais recentes não deixam margem para complacência. Segundo o IBGE, apenas 20,5% dos brasileiros com 25 anos ou mais possuem ensino superior completo — um salto em relação aos 6,8% do ano 2000, mas ainda distante do patamar das economias desenvolvidas. Entre os jovens de 25 a 34 anos, quase 80% não têm diploma universitário.

O relatório Education at a Glance 2025, da OCDE — que neste ano dedicou seu eixo central justamente ao ensino superior —, expõe outra fragilidade estrutural: um em cada quatro estudantes brasileiros abandona o curso já no primeiro ano, quase o dobro da média da organização (13%). Apenas 24% dos jovens brasileiros concluem a graduação que iniciam, contra uma média internacional de 49%.

O paradoxo é que, quando o brasileiro conclui o ensino superior, o retorno é expressivo: um diploma universitário eleva a renda em 148% em relação a quem tem apenas o ensino médio — bem acima da média da OCDE, de 54%. O problema, portanto, não é a falta de valor do diploma, mas o acesso e a permanência. E isso tem explicação orçamentária direta: o investimento público por estudante no Brasil é de US$ 3.765 ao ano, contra uma média de US$ 15.102 nos países da OCDE — pouco menos de um quarto do referencial internacional.

Fontes: IBGE (2024) e OCDE, Education at a Glance 2025.

O contraste com o modelo europeu

A União Europeia construiu, a partir do Processo de Bolonha (1999), o Espaço Europeu de Ensino Superior: um sistema com três ciclos articulados — licenciatura, mestrado e doutorado — e o sistema de créditos ECTS, que garante mobilidade acadêmica e reconhecimento automático de qualificações entre os Estados-membros. Um estudante formado em Lisboa tem seu diploma e seus créditos reconhecidos em Berlim, Varsóvia ou Helsinque com fluidez que o sistema brasileiro está longe de oferecer, mesmo internamente entre estados da federação.

Essa arquitetura não é apenas burocrática — é geopolítica. Ela transforma a educação superior em instrumento de integração regional, competitividade econômica e formação de elites técnicas capazes de dialogar em escala continental. Enquanto isso, a mobilidade internacional de estudantes brasileiros permanece estagnada em 0,2% do total de matrículas, exatamente o mesmo patamar de anos atrás, enquanto a média da OCDE saltou de 6% para 7,4% no mesmo período. O Brasil não está apenas atrás: está parado enquanto o mundo se move.

Por que isso interessa à classe política?

Aqui reside o ponto central desta matéria, e a razão pela qual ela é dirigida especificamente a consultores, assessores e articuladores políticos. Políticas educacionais de médio e longo prazo — financiamento do ensino superior, integração regional de currículos, internacionalização acadêmica, retenção de talentos — não nascem de decisões técnicas isoladas dentro dos ministérios. Nascem de decisões orçamentárias e legislativas tomadas por agentes políticos, e sustentadas (ou sabotadas) pelos quadros que os assessoram.

Um assessor ou articulador que não compreende a diferença entre um sistema fragmentado como o brasileiro e um sistema integrado como o europeu dificilmente conseguirá formular, negociar ou defender políticas de Estado capazes de reverter indicadores como os apresentados acima. A qualificação técnica e educacional de quem assessora o poder público não é luxo corporativista: é pré-condição para que o debate público sobre educação deixe de ser retórico e passe a ser estrutural.

A experiência europeia mostra que reformas educacionais de fôlego — como Bolonha — levaram décadas de planejamento supranacional sustentado por consensos políticos renovados a cada ciclo eleitoral, independentemente de qual partido estivesse no poder. Isso só é possível quando há, na classe política e em seu entorno assessor, um mínimo comum de compreensão técnica sobre o que está em jogo.

Uma convocação

Cabe a esta Associação, e a cada um de seus membros, assumir a educação — a própria e a que se advoga para o país — como pauta permanente, e não episódica. Qualificar-se continuamente, acompanhar indicadores como os do EaG/OCDE e do IBGE, e compreender modelos comparados como o europeu não é exercício acadêmico: é instrumento de trabalho para quem pretende influenciar políticas públicas com responsabilidade.

Um Brasil que investe um quarto do que investem as nações desenvolvidas em cada estudante universitário, e que perde um em cada quatro alunos já no primeiro ano de curso, não converge para nenhum futuro competitivo sem que sua classe política — e quem a assessora — trate a educação superior como prioridade de Estado, e não como item de segunda linha na pauta legislativa.

Sandro Roberto de Souza
Secretário de Educação — Associação dos Consultores, Assessores e Articuladores Políticos do Estado de São Paulo

Esta coluna faz parte da Diretoria de Educação e fica na editoria Colunistas.

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